A RUA DA LAGOA
Flamarion Costa
Secou a lagoa
ao fundo da rua dos doidos!
aterrou-se todo passado
sepultaram tantos momentos
e lembranças... !
Foi tudo que ficou além da rua !
Ali construíram casas, ergueram-se muros!
enquanto nem ideia fazem os que por lá passam,
como foram felizes os meninos em torno da lagoa
em busca de isca grilos, rãns, minhocas,
que na ponta de um anzol
traziam um bom pescado...
um baita pacú, um dourado,
piau três pintas, até um pintado!!...
O barulho da rua hoje
sufocou a sinfonia dos sapos grilos
que cantavam em volta da lagoa...
a harmonia das borboletas
em voo coloridos, soltas ao vento
sobem... e descem...
como se a embalar as lembranças
daqueles que viveram aquela rua...
aquela lagoa ao fundo da rua...
que lhe dera nome.
Rua da Lagoa... Rua dos Doidos
Rua dos presépios
Rua dos Reis Magos
Rua dos Reis e do vinho de genipapo!
Tudo acabado! a lagoa lagoa secou
o Corrente agoniza pedindo socorro!
Sonhos aterrados, lembranças vivas
e um corrente sem força, assoreado
agoniza no seu leito de morte
esperando o fim!...
Os peixes partiram,
desceu rio abaixo, sumiram !
Só ficaram nas fotos guardadas
no coração do velho pescador
que de saudade, morre também
sentado a beira do rio
debaixo da sombra do centenário
tamarindo.
O barco, a carranca, o ajoujo
e uma vara de pescar atirada ao chão ...
O velho pescador (Tutes) recorda
a emoção da fisgada... o risco n´água... a corrida
e o pulo do dourado fazendo vibrar o peito do pescador...
a farta a vida de nosso do rio! acabou.
Ah saudade tanta... da lagoa... do rio...
das pescarias e dos passeios de barco...
Ainda se tem as fotos de Rosa Tunes
colorindo a saudade
vestindo nosso peito de esperança
apesar do coração tristonho!
Sem lagoa... sem grilos e sem rã...
de que adiantaria a lagoa
e o céu azul
se o rio perdeu o brilho cristalino
e só o tamarindo ainda resiste
mesmo extrupiado, escorado resiste
como último símbolo de uma era
farta e feliz...
O rio ainda corre,na verdade escorre,
Um fio de esperança que súplica
pelo corrente que não mais corre,
escorre, fadiga, morre... !
sem forças pra prosseguir!
ah! meu Deus, quanto desatino
ao longo das margens desse rio...
esgoto, lixo!
Tantas recordações picotadas
transcritas num pedaço de papel
o meu amor virou papell picotado…
(Molicos).
Ah se vocês se os jovens de hoje
tivessem vivido o rio que vivemos...
tanta beleza, tanta fartura ...
Sinto saudade daquele tempo...
daquele rio!
de João Xoroxó e sua canoa;
Emílio e o ajoujo
O Carranqueiro Guarani
e seu discípulo João do SAAE
se inspirando em imagens góticas
expostas na proa das embarcações.
Saudade... saudade do apito do vapor!
- Não sei por quê hoje fui passar por esta rua
e despir o peito diante das lembranças
se tudo acabou!?.
A vida morreu no rio e a lagoa jaz suterrada
agonizou... foi aterrada viva
virou rua, aquele pedaço de nós!
- Ah por quê fui passar nesta rua
onde morava a namorada...
Seu Jayme e seu sax alto
as lapinhas e a amiga Netinha...
Fragmentos de vidas feito clarão de relâmpago
vem e vai...
quando alguém contemporâneo passa
e diz olá você por aqui?
As lembranças se assanham por todos os lados
picam feito marimbondos assanhados
num coração cheio de nostalgia!
Perambulo cada rua... choro em cada canto
o encano que se foi!
O barquinho club, o Canecão, o Santa Clara!.
O bar de Maninho... o Ovo de Codorna
o Pingo D´água...
Em tudo vejo um pedaço da vida esquecida.
Aii que saudade de mim,
de nós, do cine união
do Jardim do Jacaré
o clube 2 de julho
da rampa do Banco do Brasil...
e do disse me disse na beira do rio!...
nas ruas e ladeiras de Samavi!
Todas as vezes que passo por esta rua
vejo a silhueta de Seo Antônio Gusmão
Napu... Ruy ... e o choro sentido dos saxofones
chorando baixinho...
e um coro de sapos no “back vocal”...
ao pé da calçada...
- Foi! não foi! não! - Foi!
As borboletas languidamente ainda voam
sapos e grilos casualmente ainda cantam
na vida vazia que se segue!
A orquestra de sapos
grilos e insetos, a beira da lagoa
calou... o maestro cururu morreu!
Quantas lembranças invadem o coração
Seu Cadú, Nenem o fotógrafo, Tião Araújo
Dona Milu, Seu Adenor, Carvalho
Pedro Mariano... Maninho, Guarani!!!
O mestre Antonio Soares...
Acho que de saudade quem morre fui Eu.
E olhe quem vem lá
de bengala em punho, boné estiloso
andar manhoso
compassados passos vem,
"papiando" com um e com outro
o mestre Guarany e Antônio Soares
monstros sagrados das arte cenicas e da musica
na vida em Samavi.
Acabaram de passar por mim
fizeram um aceno, como mimo
chamou-me de menino e seguiram sem rumo!
...
Numa poça d´água no chão
a lua espelha o sorriso de Netinha,
a cupido daquela rua!.
Ainda vejo em Santa Maria Sandra Maria
rica menina triste !
E a desfilar pelo salão de festas
loiras e morenas dançando
ao som dos Magnatas...
As voltas incansáveis no jardim da praça
onde poetas declamava os versos do poeta Novais
amenizando meus aís.
Amigos imortais acompanham meus passos
João Borges e Roertinho , Renan Sá
o poeta Alorof e o amigo Dó!
Quincas e mais Quincas, Flávio Bonfim !
Paulo, Nelito, o pequeno galã Lucival!
O playboy Gilvan Queiroz
Os filhos de Zé Teixeira
Arnoldo e Aroldo...
Saudade!
saudade!
saudade...
Descontraída pela calçada torta
numa rua torta com seu encantos
Vem Ela como estrela guia
Ítala Soares,a professora
que me fez arrependido
de ter nascido tanto tempo depois...
Que doce fascínio, vê-la
minhas pupilas atrevidas brilham
a bocejar a canção do Roberto..
"minha Senhora, quero ser seu namorado"...
de tão apaixonado que fui!
Um varal de lembranças se estende
até a porta do Colégio Popular Oliveira Magalhães...
Artuzita, Tutes, Nãna, Arnóbio e Joaquim Lisboa
e o dileto Professor Raimundo...
A Rua da Lagoa
Praça do Pirulito
Jardim do Jacaré
Rua Teixeira de Freitas
o Alto da Capelinha
e o Jardim Bucetinha...
O tempo passa
Samavi só é a mesma em nossa lembranças
no coração de Valdelice, Marilú e Celina Sá
no sorriso de Esmeralda, Hilda e Juscara,
Dinalva, Laura e Rosineide... !
As sapecas Ma. Evani
e tantas outras Marias...
William e Filomenas
de todas Helenas Núbias e Magnólias...
na saída da escola...
no Jardim jacaré
esnobando charme
suspirando paixões!
Raios de lua clareiam a beira do rio
Ave Maria de tantas vitórias, de tantos amores!
Eu queria muito um minuto de silêncio
em memórias às lembranças tantas
recordar os velhos atletas
e suas jogadas felizes:
Belonísio Cruz arqueiro galã, prefeito
Djalma, Dadá, Dema, Dêda, Daí, Dão e Dida
o canhotinha Ítalo Ípojucan,
o grande Messias, o dedicado Oswaldo!
Renatinho, Zé de Paula, Touro e Tonho de Palú ...
Sinto que vou chorar
pois alguém me lembrou Iôzinho!
- Não choro sozinho meus aís
Joãozinho de Dona Rosa chora comigo
tudo que passou !.
O tempo virou ao avesso minha saudade
nas lembrancas dos amassos
no escurinho do Cine União...
O rala rala ao som de Bee Gees e The Feveres
na popa do Barkiquinho clube
no escurinho da luz negra ...
Valei-me oh Santa Clara!
A cultura era como um rio
farto e rico
no clube 2 de julho
Iôzinho, Wilson Afonso
Nelito Galhardo
Esmeralda Queiroz,
Pedro Mariano, Antônio Augusto
João Nogueira...
encenavam a arte da dramaturgia
cobertos de aplausos!
Quase me perdi em meio a tantas lembranças
sentado na calçada da Ruas dos Doido.
senti o cheirinho de café torrado
o cheiro madeira serrada
vindo de distante e lá da Almasa...
AH! as torradeiras de Pedro Almeida...
Aquele rio exuberante,
belo e corrente
como os olhos de Maria Evani que choram
nossos ais !
Recordações picotadas
Transcritas num pedaço de papel...
foi tudo que ficou de um grande amor
que virou poesia (Molicos).
Onde quer que´u vá
vou sempre lembrar
da Rua dos Doidos ou Rua da Lagoa
e aquelas canções gaiteras que na´lma ecoa
como se os anuros cantassem
a nossa última canção...

Javan Marinalva Flamarion
.