Correntina Arte & Cultura
Casa da Cultura Iozinho Costa
Textos

Tonho de Rafael - Tonho de Aparecida 

Tonho do Incra- Tonho poeta…

 

          Nascido na fazenda do Barreiro, há uns 10km da cidade de Correntina - Ba Antônio veio morar na cidade meio que forçado por Seo Barbosa, o pai, que  desejava para o filho um futuro mais promissor. O inquieto menino vivia embrenhado no mato e na beira do rio, com arapucas e estilingues tirando a paz dos passarinhos!  Ele porém não pensava desta forma e queria mesmo era a vida nao mato, na fazenda do Barreiro; um lugarejo que mais parecia um pedaço intacto do paraíso: mato verde; bicharada; passarim  de montão peixes  de cardume. Vixe Maria! Cobra, onça pintada até pé-de-garrafa tinha naquelas mata! e a vida livre pra si viver, longe da muvuca na cidade,  onde tudo tinha hora de ser e acontecer!.
 

             Na  fazenda a vida tinha mais tempo para ser vivida! Podia se  calvagar pelos campos,  pescar, caçar,  sentir  a drenalina  que era aquela vida na roça. 
 

           A vida  na cidade lhe parecia muito pacata, sem muito o que fazer e nada alí o apetecia; comparava aquela vida a uma comida insosa, sem o sal da vida, sem a graça alegre da vida de menino criado na roça. Por vezes ía a cidade  com os pais, para a feira do sábado e antes mesmo que o sol no horizonte se recolhesse, já estava em casa no aconchego da lua, sentado no varandão da casa onde por vezes a familia avançava horas na noite, olhando o céu estrelado; ouvindo modas sertanejas no rádio a pilha e os causos imprescionantes que os mais velhos contavam da vida,  neste mundão de meu Deus! 

          

          O Tio Rafael Barbosa foi o escolhido pelos pais para assumir a responsabilidade de orientá-lo a encarar a vida na cidade; dar ao menino. Já adolescente uma educação mais eficiente, a ter a tal profissão promissora, para o sustento de uma futura família.  

 

           As principais mudanças que Antônio percebeu na cidade, logo de cara; foi a rotina da escola e a dinâmica do trabalho que tomavam todo tempo do dia e nada lhe restando para cuidar de seus interesses de vida adolescente! ou seja a diversão. A escola da roça não havia tanta cobrança e depois dela  sobrava um tempão para se divertir como bem quisesse.  Lá o importante era saber lê e escrever, um pouco as quatro operações matemáticas e nada desse negócio de biologia, química. Da’ história do Brasil bastava saber que foi Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil. perdido em algum lugar distante entre oceanos e mares! 

             

            Teve jeito não! Ele veio mesmo morar com o Tio e logo passou a ser conhecido por Tonho de Rafael.  Já era rapazinho e teve que se adaptar a  nova rotina da vida na cidade.
 

          O  que ainda o acalentava era quando tinha tarefas a fazer na fazenda do Tio, como no final da tarde recolher o gado no curral, separar as vacas paridas de seus bezerros; por  ração  nos coxos e ali deixar  o gado passar  a noite; quando bem cedo, no dia seguinte, ordenha das vacas e depois as  liberava para o pasto, soltando os bezerros para a primeira mama do dia. Em seguida tomava  o rumo da cidade levando os latões de leite, ainda morno das tetas das vacas, para dona Mariquinha distribuir para freguesia e fabricar queijinho requeijão.

          

             O Tio-Pai tinha algumas frentes de comércio que foi se atualizando, de produtos produzidos na roça, como farinha açúcar mascavo, rapadura, queijo, requeijão para os produtos industriali- zafos, até chegar a fina  loja  de tecidos.

 

             Tonho saiu da adolescência e tornou-se  homem  nesta toada, horas na fazenda, outras na loja e de certa forma foi se afeiçoando a vida na cidade, que afinal de contas tinha lá seus atrativos, como as garotas, o futebol; o banho de rio, onde as meninas em seus maiores coloridos  tentavam seus instintos de macho alfa.
 

  

 

            Os forrós pela periferia da cidade foi a grande descoberta, janela aberta pra um voos livre apelo lugares proibidos na cidade. O  salão das gafieiras ficavam na periferia, geralmente numa casa qualquer de chão no cimento azulão ou vermelho, que logo perdia o brilho do lustre no pisa pisa que  ascendia a mistura do cheiro forte de suor  não incomodava ninguém, todos concentrado nas ancas das morenas, grudadas no pescoço dos machos, que lhes acochambrava os quadris e se colavam a fungar um no pé do ouvido do outro... Por vezes uma sensação estranhas dava arrepios, a saliência era inevitável e a temperatura também subia junto com a sensação do suor frio, no sacode sacode da bumba, sanfona e triângulo estridente... levantava a poeira a se misturar com a mistura do cheiro de suor do desodorante mistral ou avanço...  era uma loucura!

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               Ali perto conheceu um mundo incomum a vida na roça;  os puteiros ou cabarés,  prontos para aliviar qualquer sintoma ou efeito colateral do rala rala que varava a noite. Eram dois ou três cabarés, mas apenas um tinha um nome bem definido por  uma placa a frente, sobre o postal: Flores Belas.  Também havia o cabaré de  Raimundona e suas filhas, belas mulatas  que seguiram a risca a profissão da mãe. Bela certamente já aposentada não subia na bananeira, nem fincava estaca, dizia Tonha,  mas mantinha as regras da casa e fazia valer a tabela de saliências, quando um cliente queria sair da costumeira mesmice...  Como  cafetina, dona do pedaço, era rígida com a segurança e a honra do seu nome codinome emprestado ao Cabaré.

 

          O Cabaré Flores Belas era o mais organizado e disciplinado da cidade, não era aquele Pingo D´água de Santa Maria, que se estendia por uma rua inteira, próximo ao estádio de futebol, formando um bairro de cabarés que a noite fervilhava de homens ao som de Waldrick Soriano,  Lindomar Cartilho e um menino cantor recém surgido no Goiás, chamado Odair José! 

 

           Outras mariposas voavam livre sem território delimitados... em qualquer lugar que não  fossem hostilizadas. Pousavam sem fazer ninho e quando ao cair da  noite, eram vistas como  outdoor ambulantes anunciando a disponibilidade do produto,. O show não tinha hora pra começar nem findar;o cliente era o dono da festa, as vezes alI no escuro da praça já vazia… os mais finos ou exigentes, marcavam hora dr subir até o cancelão  era  só chegar e submeter-se a tabela com saliências ou sem saliências, ou mesmo o trivial. Não queiram saber o que seria saliência, pois cada um tinha sua própria fantasia sexual. Eram independentes a veterana Vezinha, as folgadas Ana Preta, Xandú e Noraínes, comedoras de adolescente por qualquer trocado… porém no cabaré Flores Bela realmente tinha uma flor especial, uma loiraça pra ninguém botar defeito; corpo bem definido, olhos azuis, cabelos onduladas compridos, uns 25 anos, talvez menos, Vigor, fulgor e a rapaziada ouriçada pagavam até em ouro se exigido fosse. Ela parece que se apaixonou por um jovem mulato da cidade, de família nobre. Se assumiram no puteiro e acabou a disputa; o mulato se tornou o dono do pecado de pecado!  Não tinha mais pra ninguém. e Eles se apaixonaram até se propuseram casar. O problema era a família  do rapaz. Contou-me Antônio, que os pombinhos já tinha vencido o preconceito desta  sociedade cheia  de  hipocrisia.

               
 

 

 

 

   

            Digamos que a moça fosse Maria, mas era conhecida por Loirinha e Ele João, então João e Maria se apaixonaram. A mãe do João deu um pulo ao saber da história de amor que tinha por cenário o cabaré e logo, logo tomou as providencias mandando João para a capital e acabar com aquele romance descabido. Os filhos de então tinham uma obediência cega aos pais; podiam até resmungar lá no seu quarto, mas as ordens eram cumpridas. João foi embora pra Salvador, mas prometeu que jamais voltaria a Correntina,  fosse qual fosse o motivo; doença, morte ou vida. Maria, semanas depois, sumiu, ninguém sabe pra onde foi, qualquer lugar, menos Salvador e nunca mais nenhum deles retornara a Correntina...(preservamos nomes por questão de ética)


               Tonho ficou entusiasmado com as facilidades do sexo, que tornou-se um problemão em sua vida a partir daquela descoberta. A esta altura, voltar para o Barreiro, nem pensar!  Foi se envolvendo  com a sociedade em seu modo mais delicado, se enturmando com outros rapazes. Entrou  para escola de música do velho maestro Nemézio Galhardo, tornou-se músico dos saxofones alto, tenor e soprano, também tocou clarineta na filarmônica Heráclito Correntinense no auge de sua existência.  

 

            O velho Rafael Barbosa teve outros filhos adotivos; o casal não tivera filhos naturais do casamento e dos filhos adotivos os mais conhecidos foi Antônio Barbosa e depois Pedro. Rafaelzinho como também era conhecido, foi um homem muito bondoso. Tinha  baixa estatura, andar calmo e vagaroso, se vestia bem, não era tão cheiro como Lino Cheiroso, mas jogava  seu charme. Era o recordista em número de afilhados na cidade e disso se envaidecia.
 

              Na  semana santa havia  um dia dedicado a bênção aos afilhados, por seus padrinhos e madrinhas que além de os abençoar, davam um agrado ao afilhado, um presente que gerava expectativa entre eles; por isso, bem  cedo as crianças se arrumavam  para procurar seus padrinhos e madrinha para pedir a bênção e óbvio ganhar seu presente. Rafael Barbosa no dia da bênção aos afilhados  surpreendia seus afilhados.  Há  alguns dava dinheiro em espécie e  um ou outro sortudo,  por vezes ganhava uma bezerra,  para quem sabe assim iniciar sua vida de fazendeiro. 

 

               Eu fui um desse sortudos mas não tornei-me fazendeiro; tive  o gosto de chegar a cinco rés,   pois a cada duas crias, uma ficava com o velho Cinza, dono do pasto onde morava minha vaca mimosa, depois a  bezerra Gracinha e um pequeno touro de três anos chamado Giocondo. (Ahh! Esse Djalma de Cinza  era terrível, pra colocar nome e apelidos em tudo!)

 

             Os filhos adotados por Rafaelzinho receberam total apoio do padrasto,  nos estudos, no trabalho ou na preparação para lida da vida.  Antonio teve vários tipos de comércio como  bares, loja de tecidos, alfaiataria, armazém. não necessariamente nesta ordem, mas foi se firmando até o momento em que se casou e assumiu sua própria família.

 

                 Pedro, o caçula tomou gosto por fazenda e se tornara uma espécie da capataz administrador. Era comum vê-lo desfilando pela cidade  em belos cavalos e mais tarde até com um Jeep.  Com a morte de Rafael Barbosa, não posso afirmar como se dera a partilha dos bens, o que se sabe é que este assunto não chegou ao tribunal popular, sinal de que tudo ocorrera entre família. 

 

              Tonho de Rafael viveu um bom tempo intercalando seu comercio e uma vez casado viu que precisava ter uma renda fixa, para não faltar com as despesas de casa; então, se por concurso ou mais indicação política, não sei, porém é sa ido Rafael Barbosa tinha muito prestígio político no município, forte aliado de  Elias  França; por concurso ou indicação foi admitido como funcionário do INCRA -Instituto Nacional Colonização e Reforma Agrária  como fiscal e logo se tornou Tonho do Incra, já não era Tonho de Aparecida, Tonho de Rafael;  Tonho músico e Tonho poeta, este último Tonho foi aquele que o deu  assas para voar sobre pelo céu do seu mundo imaginário de amores utópicos e platônicos.  
 

            Percorreu as ruas e bares da cidade declamando seus versos com tal realismo que os davam vida, a cada palavra declamada com convicção da realidade nelas expostas. Quanta  emoção!. O poeta não fazia distinção do lugar onde declamar um poema pois a Ele só interessava a atenção de quem o ouvia, fosse na rua, no Mercado, no Bar do Rochinha, Bar do Afonso ou Bar do Guerrinha, até mesmo no cafezinho de Seo Angelo ou na venda de Quinca Bae!

           Esses eram os bares da elite de músicos e boêmios seresteiros, onde todos compareciam com seus instrumentos devidamente afinados, entre eles estavam  os gênios e intelectuais  Valdomiro - Vadó;  João Guerra, Vani de Austrogildo, Edi de Dona Beta, Dr. Guido, Dr. Mendonça, Queno, Felinho e Dr. Vando, filhos do Manor Félix; Teófilo Guerra, Veríssimo Araújo, Claudionor e Rubens Rocha João Guerra, Mariano, Vando de Cinza, Mascilon, os irmãos Dão, Guido e Joélio, os irmãos Coimbra, Valter Santos,  até Iozinho, que não era de beber, por vezes estava lá hibernado no Bar do Roxinha, pela voz que tinha, cantava encenando seu canto, era um poeta ator.

 

          O que não faltava era bandolins, violões, cavaquinho pandeiro  e xecerê… Era só findar o dia de labor, todos se despiam das responsabilidades de esposo, de pai, de trabalhador, para descontraírem bebendo cerveja gelada, ou destilados, numa cantoria que se ouvia por toda praça da Matriz no  famoso e inesquecível Bar do Rocha, em uma das casas das Patury, pois era Rocha também um Patury.


      

 

           Não tinham outro meio de distração, senão passar horas e horas em cantorias bebendo cachaça e cerveja ou ir para casa engravidar a mulher, pois filhos se tinhas as pencas... 

           O casamento com Maria Aparecida, uma das mais belas mulheres de então não foi o suficiente para fazer Tonho mudar de vida. Não mudou em quase nada a vida de muitos homens casados. Ele era de Aparecida e da vida! Ela,  uma mulher das belas mulheres da cidade, que deixou nos filhos, homens e mulheres, os traços dos seus encantos pueris. Basta vê nos olhos cor de mel transparente dos sete ou oito filhos!; a bela cabeleira e finos traços do rosto de qualquer um deles, se confirma a beleza, a elegância que por herança do DNA carregam de Maria Aparecida, que precocemente partira em consequências de um parto difícil.

 

           Maria Aparecida. não domou aquele potro selvagem que foi Tonho, acostumado  a vida livre nas matas do Velho Barreiro e nos cabarés e bares da cidade. Antonio viveu grandes aventuras e se alguém se através acha-lo irresponsável, então todos aqui citados foram cúmplices, por trilharem o mesmo caminho, as vezes com mais discreto, por vias de atalhos que levavam ao mesmo destino.

 

          Os homens tinham vida livre e as mulheres eram a geração Amélias “a mulher de verdade"; apesar de terem se libertado desse jugo, o prejuízo veio com a maioria não se valorizando na sua essência feminina, sendo hoje mais um objeto de desejo; óbvio que em toda regra há exceção; a mulher não pode ser submissa a tal ponto que era Amélia, mas não pode jamais se vulgarizar, pela nobreza da grandeza e da importância que tem uma mulher, em todos os aspectos. 
 

Os relacionamentos eram menos conflitantes justo pela submissão da mulher que um dia deu um basta a vida de Amélia, não para ser um objeto descartável no sexo.  Os tempos mudaram e muito homens em sua ignorância não aceitaram  as mudanças. Exigem das mulheres o que menos têm a dar: - Fidelidade, respeito, amor! O homem de hoje tem se comportado como um animal irracional, também há exceções, querem impor pela força física, bruta, a traçar limites, definir fronteiras, físicas ou espirituais na vida da mulher, como propriedade sua; para se impor, usam da violência até matam pela incapacidade de compreender que a mulher tem os mesmos direitos do homem, de amar ou deixar de amar quem não correspondeu as suas expectativas ou por incompatibilidade na vida a dois.

 

Tonho tinha um coração piedoso, raparigueiro sim! mas sensível as causas e necessidades humanas; fosse o outro uma raparigas, um mendigo.
 

As meninas mariposas bem sabiam  aproveitar do seu coração de leão manso, e alisar sua juba e se apostar em seu bar, ali na esquina de Quincas de Marcolina, na praça do Mercado Municipal, geralmente a tardinha, iniciando a noite.  Saiam a espalhar o cheiro do seu mel a sobrevoar os espaços, se fingindo rainhas a espera dos   zangões que as fecundasse pelo cheiro de sua flor!.

 

As vezes dava resultado, porém quando lhe faltava cliente, numa noite fraca, sobrava a bondade do coração do leão manso que se compadecia com uma cesta básica que tinha por pagamento apenas a gratidão e nada mais que isso!  Não era apenas a essas mulheres que Tonho se mostrava solidário, paciente e ofertante; também com os conhecidos serrotões, como eram rotulados aqueles beberrões que se ancoravam nos bares a perturbar um e outro freguês, pedindo: - Paga uma aí pra mim! e depois vinha mais uma e a tradicional: - Paga aí a saideira meu!
 

Paciente e compreensivo deixa-o ali num banco solitário, até certo limite, quando Tonho o chamava e botava uma dupla no copo, colocando o copo sobre o balcão com certa truculência e cara de poucos amigos a dizer: - Acabou! acabou! Aqui a saideira, vira e some! Por hoje chega!

Ao ficar viúvo todo mundo pensou que os filhos de Antônio e Aparecida fossem ser doados entre os familiares e aí Tonho surpreende a todos, não aceitando a sugestão determina que todos estariam juntos, com Ele no comando da família, houvesse o que houvesse, eles cresceriam como irmãos em família.

 

Certamente daria novo rumo as suas raparigas e vida de botecos; após o trabalho tomaria o rumo de casa e animaria a turma ou por ela seria animado, como diz em um de seus poemas... diminuiria o ritmo da boêmia! até parece que seria assim!  Talvez por pouco tempo o tenha sido. Os filhos mais velhos cuidavam dos mais novos e a vida foi tomando seu curso como um rio que esbarra em pedras, mas segue seu rumo pela insistência e esperança de um final feliz. Tonho nunca deixou faltar pão, leite ou o feijão de cada dia e com a responsabilidade a seu modo; os filhos não ficaram ao Deus dará! sem escola, uniforme ou material escolar,  talvez lhes faltaram um pouco mais de afeto, atenção, carinho... Certamente os filhos clamavam a sua presença paterna em momentos que outro não o substituiria, afinal, ele era o Pai e agora também a mãe.

 

 Todos juntos, decisão sábia que os permitiu saber o que é viver em família e não como irmãos dispersos em casa de parentes.  Até que tentou um novo relacionamento, sem casamento e sem levar mulheres pra casa. 
 

        Os filhos sabem ao certo o que passaram, viveram; o Pai pode não ter sido tudo que sonharam, mas não os abandonará a sorte na casa dos outros.  O que nos limita a descrever nossa visão do ponto de vista, externo, pois só quem viveu a experiência pode falar dobre ela. 
 

 Os filhos foram criados, sobre viveram as tempestades da vida; se ficou algum, só eles o podem dizer!   Ninguém mais  pode julgar o homem ou o Pai, senão os filhos. Eles cresceram não só em estatura, mas também  em caráter e dignidade como família, criados juntos; se tornaram senhores e senhoras de suas vidas, formaram suas próprias família, venceram!.

 

Tonho de Rafael foi uma estrela que brilhou no mundo que Ele criou para si. A família corria ali na  paralela! Se gritassem Ele mudava de pista fazia o que podia ser feito e retornava a exclusividade do seu mundo. Antonio Barbosa o poeta, foi uma pessoa que  viveu por aquilo que gostava de viver: tocar seu violão, cantar seus boleros apaixonados, de quando em vez seu sax e fazendo a alegria de quem tirava um tempinho para escuta-lo declamar sua última inspiração poética, que Ele logo memorizava e saía a recitar ao primeiro que lhe desse ouvidos. O poeta Antônio Barbosa foi uma prova viva de que uma andorinha só, faz o verão, sim! Independente de onde Ele voe ou sobrevoe, a alegria se derrama em gotas de ternura, ou lágrimas de um poema cheio de dor de cotovelo. 


Para ele bastava que uma pessoa, só uma, que lhe desse atenção aos versos declamados, para sentir-se realizado com seu riso de gratidão ao mono aplauso, pois era um ator quando recitava seus versos; fazia do lugar o seu palco,  qualquer lugar que tivesse por teto o mesmo céu de tanta esperança!

 

 Não empreendeu prosperidade em sua vida de comerciante, alfaiate ou músico, mas como servidor do Incra deu equilíbrio no atendimento das necessidades à família. A certa altura da vida, já viúvo com oito ou nove filhos do unico casamento com Maria Aparecida, sabe que não foi o marido ideal ou o  pai presente; teve suas falhas e quem não as têm ou teve? Mas será que os amigos ou filhos viram suas virtudes?  Nenhum de nós temos autoridade para julga-lo, bom ou ruim, somente os filhos têm esse direito, como também a grandeza de saber  a virtude do perdão. O  que podemos dizer pelo que assistimos na sua velhice, sem visão, totalmente dependente de um guia, é que os filhos atingiram o coração de Deus, ao perdoar todas essas falhas humanas e retribuíram, sem amargura, pelo que acho, ao assisti-lo em um momento tão difícil, quando os velhos são abandonados por seus ente queridos, quando se tornam inúteis, improdutivos.

 

 O perdão apaga magoas e contribui muito mais com quem perdoa, do que àquele que é perdoado, o perdoador sente um coração livre de amarguras, rancores, situações que trazem infelicidade que quem as alimentam e prejudicam a saúde espiritual e física de quem não sabe perdoar.  

A música e a poesia era a força extra de Antonio Barbosa para encarar a dureza da vida. Na poesia chorava suas dores, decepções amorosas, mas cultivava resquícios de esperança... A música a bebida e as mulheres em resumo, foram as grandes fraquezas do poeta e na poesia buscou encontrar o canto de acalanto das mágoas e das decepções.

 

               O Bar do Tota foi o ultimo reduto clássico da boemia em Correntina. O Bar do Tota ainda está lá, mas sua elite artística partiu, um a um subiram o beco do Seo Anjo. Por ali passaram famosas figuras de nosso cancioneiro pop ou MPB. Quem não se lembra do grande astro Antônio Mora, que em Correntina ganha um apelido memorável, ligando sua vasta cabeleira as palhoça do rançhão; Tonho Ranchão, o astro santamariense que retornou as suas origens, depois de ter residido em Correntina por um bom período.

   Tõe Ranchão  e   Italo Ipojucan                               

          Aos poucos o Bar do Tota foi perdendo grandes figuras!  se o violão e a voz de grandes astros de nossa boemia, tal qual Canô, Pedão, Tonho de Rafael, sem a presença de figuras como Veríssimo, Mauricio, Napu, Valmir de Olegário, Napú, as horas foram ficando monótonas... sem cantoria de Vavá e a alegria de Neto de Cordeiro, Louro de Manim, Katigoria, Dr. Marcelo Coimbra, o galã Javan de Iôzim, Teoney, Edgar Brotim ... Não se ía lá só pra tomar cerveja gelada,  havia a essência química na música ao vivo, no papo violado cheio de recordações... Isso era tudo!. Sem em show fantástico da vida, no Bar do Tota, um a um foram se afastando ficando apenas o acaso de quando em vez nos levar a nos encontrarmos por lá.  Tonho de Rafael foi insistente e fiel ao lugar, fazia o grande sacrifício de sair tateando paredes pelas ruas, sendo ajudado por um e por outro a atravessar uma pista, ou alguém que o via, acabava de carona o levando até o destino...  e lá chegava vendo o vulto da felicidade, sacava sua caixinha de fósforo, pedia um sol maior e abria o gogó em um velho bolero das antigas... Maria 'Helena és tu, a minha inspiração... vem Maria ouvir o meu coração"... A volta era mais fácil, alguém sempre se voluntariava leve-lo e até por vezes ir buscá-lo. 

 

                                    Claudionor - Canô &  Katigoria 

 

 

               A maior perda no Bar do Tota foi a partida de Canô, o eterno seresteiro... Alí Ele era o com direito a cadeira cativa; seu trono. Hoje o Bar do Tota não tem mais aquela essência sem Tonho de Rafael, sem magnífico Claudionor (Canô) e os decanos Veríssimo, Maurício, Pedrão... A academia foi ficando em silêncio...! O bar se esvaziou de talentos, vivendo de acasos momentos, por lá se encontra a patota de Neto de Cordeiro, Louro de Manim, Ceres Crisóstomo, Vavá Cunha, Teney Guerra, Edgar Brotim, Javan de Iôzim, Dr. Marcelo, o velho cancioneiro Katigoria ... Aí eles ressuscitam as velhas lembranças, uma viola chora, um bumba repica e a poesia suspira como se o passado a porta batesse. e Tota em sua euforia calada, desce mais uma... mais outra sem perder as contas, afinal fiado por lá só com aval da palavra do Dr Marcelão. E o sambão sacode a rua afunilada no estreito de João de Margarida, o Pai de Periquito. 

                                         
  Selênio - Paulo e Tota Fenelon Italo.   Luiz                              

       

             A TRAGÉDIA

            Na semana da tragédia que vitimou nosso poeta, Tonho de Rafael, eu o havia feito uma visita; era hábito visita-lo sempre que ía a Correntina, fosse em sua casa ou em um dos templos que ele frequentava. Aquele foi um encontro emocionado, mal sabia eu que era o ultimo. Mostrei-lhe  o meu sax e ele apalpando-o disse-me...

- Deve ser um belo tenor! posso vê-lo, agora quero ouvi-lo, toca aí um bolero!...

- É um tenor metal envelhecido Tonho! - No meu tempo eram  todos prata ou amarelão... mas toque algo!

 

              Toquei a canção Relógio  e ví que dos seus olhos desceram duas lágrimas... uma corria atrás da outra, por não querer chorar ficar sozinha... Ele se emocionou e disse-me. 

- Não poderia escolher canção melhor! sabe a história desta inspiração?

- Não!

- Relógio é uma composição de 1956 o autor é Roberto Cantoral, Ele estava com a esposa internada, nas últimas, quando o médico veio chama-lo para passar alguns minutos com ela, pois não resistiria aquela noite... Roberto tomou papel, caneta e nasceu esta canção mundialmente conhecida...

- Agora a emoção foi minha ao analisar o momento vivido pelo autor, para compor essa canção... e o meu amigo poeta alí a frente em situação quase semelhante... próximo do fim. 

link.https://www.youtube.com/watch?v=CKpq_lQAtyw.  

 

        Inspirado pelo momento toquei a segunda canção,  mesmo emocionado,  lembrei-me da canção de despedida de Charles Chaplin em  seu último  filme Luzes da  Ribalta.  (1952) é um  réquiem nostálgico onde ele se despede dos palcos... e desde este dia, sempre que todo ou ouço essas canções, me emociono e lembro que estive com o meu amigo poeta, dias antes de sua partida e não sabia... ouça: link..https://www.youtube.com/watch?v=J2cwMr26DpE   

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      Presume-se que naquele dia fatídico, a sós, ao acender o cigarro e dispensar o palito sem a certeza de tê-lo apagado foi o inicio do trágico acidente… Já havia ocorrido uma vez, mas Ele não estava só e o fato serviu como um alerta de que cego, Antônio pudesse ser vítima de um incêndio e os cuidados foram tomado pelos filhos, em não deixa-lo só...  Aos 79 anos de idade naquele dia  12 de setembro de 2016. uma festa na rua impediu o vizinho a sentir o que acontecia na casa ao lado; os fotos e gritos tirou atenção  somente quando alguém passava, vendo a fumaça deu o alarme... o incêndio iniciou ali no guardo, quem sabe o palito tenha caído sobre a cama... o pequeno sofá no quarto.... os acidentes ocorrem muito rapido... Ele tentou correr do fogo, mas atordoado correu para o lado errado! O corre corre... era tarde o teto cedeu sobre o quarto!... O poeta partiu de forma trágica... um final triste,

DF: 10/04/2017

FanacoS

 

DEPOIS QUE A FEIRA TERMINA

Antônio S. Barbosa

 

O lixo entapeta o chão

Um caminhão se balança

Quem vem de fora se lança

Pra dentro do caminhão.

Um bêbado esmurra o balcão

Do botequim da esquina

Um gari faz a faxina

Um vendedor dobra a lona

Um cego ensaca a sanfona

Depois que a feita termina.

A filhinha do mendigo senta a seus pés

Comendo um pão seco

Diz, papai coma comigo.

E o velho pensa consigo

Meu Deus, mude a minha sina

Pra que a minha pequenina

Não sofra o que sofro agora

- Eu a filha e o velho choramos!

Depois que a feira termina.

..

Depois que a feira termina

No açougue da cidade

Das quatro horas em diante

Não tem um pé de Mercadante

Mais moscas têm com vontade.

 

Um gari abre as grades,

pega a mangueira E deixa tudo uma beleza

Depois que a feira termina.

 

Um jumento estropiado

Magro que só a desgraça

Quando vê que a feira termina

Aos urros chama a companheira

Abaixa a crina, se alguém se aproxima

das com as patas traseiras, murcha as orelhas

é melhor sair de perto!
quatro as cinco e meia

 

De pança cheia se arrelia

- Depois que a feira termina

Lancha, almoça, janta e sai

De volta pru roçado

Mais uma semana de labuta!

 

 

 

 

FORRÓ DO VÉI DIVINO

Antônio S. Barbosa

 

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá.

Foi assim que escutei desde menino

O Véio Divino com sua sanfona a tocar

De vez enquanto ele fazia um floreado

Apertando o contrabaixo .

 

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá.

E desse jeito ia madrugada a dentro

Puxando o fole e com o pé

Fazendo a marcação.

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá dá.

Os candeeiros nos cantos iluminam a sala

E puxa e vai o puxa évem!

O cheiro de mistral e suor sufocava o ar.

 

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá.

De manhã cedo no chão de cimento batido

Se vê as marca do pé do véio Divino.

 

A noite inteira no compasso,

O direito pé fazia a marcação

O esquerdo aguentava a sanfona na coxa

Quando cansado do peso da folia

 

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá.

E o forró do véio Divino varava a noite

Terminando no alpendre da cozinha

Com beiju cuscuz e café quente.

 

Feijão na pedra não dá

dá, dá, dá, dá !

 

 

 

BANDEIRA DO DIVINO

Antônio S. Barbosa

23/11/2000

 

Pare um pouco o seu trabalho

Escute o que estou ouvindo...

Ao longe o som de tambores

É a bandeira do Divino!

Vou parar o meu serviço

Vou em casa receber

O Divino Espírito Santo

Ele vem me proteger.

A bandeira vai saindo

Outro lar a visitar

Os alferes vão a frente

O tambor sempre a rufar

Abram os caminhos para a pomba da paz

Ano que a pomba volta outra vez.

 

 


BANDEIRA DO DIVINO

Seo Gregório - Pedro Guerra - Neno Nascimento -  Seo Galdino

 

NOTA DO AUTOR: Batuque em dois tempos SOL maior. Ao amigo ROBERTO ARAÚJO desejo participar do concurso a realizar-se do dia 30 de novembro próximo. Preciso que o Vavá faça uma avaliação da melodia e a passe a limpo. A. Barbosa

Tonho

Tina nov/2000

 

 


 

AS QUATRO OPERAÇÕES

Antônio S. Barbosa

 

Some bondade com fraternidade

E terás como resultado o amor

Um total sublime e augusto

E assim fazendo tu serás um semeador.

 

Subtraia do teu dia a dia o negativismo

Os vícios que nos limitam o coração

Então juro por José, Jesus e Maria

Que serás um referencial em meio a multidão!

 

Multiplicai em favor da humanidade

Com carinho, com desvelo,

alma aberta, serena

De coração e algibeiras abertas

e assim fazendo tu serás um multiplicador!

 

Dê com carinho de tua nobreza

Semeia a luz dos teus girassóis

E verás nos rostos do outro

o brilho amarelo-ouro

do teu próprio sorriso.

 

Entre os famintos dê do teu pão

Sem se esquecer de doar

um pouco de tua felicidade!

 

Alegria não é apenas o pão

e o riso só vinho

Dos atos que se externam ´

Além de tua mesa se faz o AMOR

E assim fazendo

Tu serás para eles um mensageiro

Mensageiro de Deus.

- Tua maior riqueza é a simplicidade

Doação tua amizade.

 

DEDICADA PELO AUTOR a

Dr. Marcelo Coimbra" Este poema eu dedico ao mui caro amigo Marcelo Coimbra, enfatizando a sua simplicidade  e sua consideração a este simples poeta.                 Seu Amigo Tonho.

Tina 6 agosto 2011

 

 

 

 

SAFRA NO CERRADO

Antônio S. Barbosa - 10/1993

 

Chove no Cerrado, na campina e nos gerais

Os rios transbordam, as águas turvam ...

As estradas se encurvam de desvios vários

Enquanto aqui os tolos discutem

e os sábios se calam... brigam os otários

discutindo a produção de grãos...

 

Nada fica para matar a fome

E a seca é um presságio futuro

Vai faltar água... vai morrer a plantação

E outra vez os gafanhotos migram

Para devastar outra rica região.

 

Lá nas campinas os silos se multiplicam

enchem , transbordam e exportam

Os preços sobrem e o povo se cala

Gaúchos garbosos adentram os bancos

Clientes preferenciais, força da agro...

 

Enquanto na sede município nada...

nada de impostos!.

Porque tanta festa comemorando a colheita?

Se aqui não chega o feijão, o milho

O algodão ou a soja?…

 

A gauchada ri atoa de todos nós...

Exploram nossas águas

Destroem nossa fauna nossa flora

e tolos ainda comemoram a safra no cerrado.

Isto é Correntina, frágil e pequenina, crescer pra quê?

Turismo comedido, carnaval, ranchão e Havaí

Tudo na medida certa, crescer pra quê?

Tenho medo dos que querem o futuro

não será mais Correntina...

Mais um Gervásio por certo será o prefeito

E por despeito vai gerar outra Jaborandi.

...............

Pra que? Pra quem?

Correntina foi poesia, campina de inspiração...

Muito em breve será deserto de areia...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTA: O poeta faz um alerta ao fato ocorrido com a emancipação do Jaborandi. Na calada… discutida à surdina no Legislativo e Executivo. Obvias pois o digníssimo Prefeito Euclides Moreira Alves não podia errar o tiro. O Rosário está na mira… nada se fala… plebiscito nem pensar! É uma ação inevitável e já definida, faltar pautar. Se Correntina autoridade sobre a área… Meu Deus! O que será!?!

                                   FanacoS

 

 

 

PÁSSARO NOTURNO

Antônio S. Barbosa

 

Qual pássaro do bando perdido

Percorro à noite os bares da cidade

busco rever meu melhor amigo

Falar com ele, matar saudades...

 

Já o vi sentado no bar da esquina

Já o vi em sonhos ele me dizer:

- Não tem valor esta vida de rotina

a vida é igual no viver e no morrer.

 

Ainda hoje sei de muitos

Que perguntam a causa mortis...

a razão e o porquê do seu viver irreverente

Entre a vida e o prazer.

Percorri os ares pra falar com Deus

Busquei remédios para minha dor

falei com todos, não me entenderam

Morri no espaço, sem carinho sem amor.

 

Fugi de todos

ainda que por instantes precisasse falar

sem que alguém me visse

por fim dizer tudo somente em um Adeus.

...

À Valdomiro Cavalcante: VADÓ: O poema foi dedicado ao popular, por ocasião de seu falecimento. Vadó era um cartola para o futebol de Correntina. Entre os tantos cartolas, Nelson Ferreira, Walter, Santos, Iôzinho Costa, Joélio Araújo Chiquito... foi o nome de Vadó o escolhido para dar nome ao Estádio de Futebol da cidade, que logo passou a ser chamado de VADOZÂO, que se mantém até os dias atuais.

                                      FanacoS

 

Flamarion Costa e Flamarion;Antonio Barbosa
Enviado por Flamarion Costa em 23/03/2026
Alterado em 25/07/2026
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