Correntina Arte & Cultura
Casa da Cultura Iozinho Costa
Textos

EVANDRO FILARDI e IRACY CARDOSO

Eles se conheceram na cidade de Santana dos Brejos – Bahia, no ano de 1957, onde a menina Sisi, filha do fazendeiro João Moreira e Dona Mariquinha, havia ido estudar, como interna no Educandário Diocesano de Santana.

Evandro Filardi e Iracy Cardoso são protagonista de outra bela história de amor ocorrida em Correntina no século passado, quando o amor era um sentimento genuíno a envolver a mente, o corpo e o espírito. Tanto esta história como a ocorrida entre o casal Lauro Joaquim e Enoé Matos tiveram um final feliz, razão pela qual me propus cantar aos amantes de hoje em dia, uma verdadeira história de amor, que muito e muito raramente nos dias de hoje.

A professora SISi, como passou a ser conhecida por seus alunos e conterrâneoa, hoje mora em um belo casarão a leste, no alto da Colina onde em sua varanda contempla o horizonte e vê a neblina da saúde envolver o ambiene de nostalgia…de um amor que nunca morre em seu coração. .

Muitos foram os amores frustrados no século passado, diante do rigos e severa vigilância dos pais que geralmente escolhiam com quem se casaria o filho, principalmente a filha. Casamento, mais especificamente na primeira metade do século XX, era uma negociação entre as famílias que tinham privilegiada posição social e financeira; os interesse dos pais era a contrapartida dessa união, pois em jogo estava a estabilidade econômica, preservação do status social, a satisfação moral e religiosa e por últimos como que eles, os nubentes, iriam se vivar numa vida a dois, muitas vezes sem um período prévio de adaptação ou namoro. Casou casou agora era viver a vida, gerar filhos e separação era algo impensado.

Imaginem um jovem rapaz, naquela época ter se apaixonado por uma prostituta… Eu queria muito contar esta história, mas minha mãe proibiu contar esta outra historia de amor que certamente teria um final muito feliz. O rapaz era filho de uma de suas queridas comadre… pena!!! Mas digo que essa mulher da vida livre, que não era tão livre assim, era uma belíssima mulher, estava entre as mais mais bonitas da cidade e Ele um mulato de formas atlética acentuada… Essa ex donzela veio parar em Correntina, não se sabe de onde, pois uma filha que se perdesse sem a opção do casamento, mesmo forçado, era expulsa de casa e proibida morar na mesma cidade de seus pais… sociedade podia ser mais pura, porém tinha suas hipocrisias. Maria, a loirinha como fada, tinha sido mais uma das tantas meninas moças que acreditaram no amor e deram ao canalha, a prova de seu amor que eles geralmente pedia… - A honra!

Porém a mãe do belo mancebo era durona, uma delegada no patrulhamento ético e moral da casa; mandou o moço para capital, acreditando estar evitando uma tragédia; enquanto eu, piamente acreditava que aquele seria mais uma de nossas belas história de amor do século passado.

Foi neste clima de severa disciplina que Evandro e Iracy souberam como vencer as barreiras dos preconceitos e a vigilância ostensiva de um internato de freiras e fazer o amor que sentiam florescer sem máculas. Certamente foi preciso ter muita disciplina, perseverança e muito mais amor!

1838312.jpg

Os jovens quando lhes eram permitido namorar, os preparativos para o casamento, enxoval da noiva, eram preparado simultaneamente; tão logo em corpo se manifestava o início do ciclo hormonal. Poucos casais de namoradas tinham o privilégio de um namoro, sem a presença a chamada “vela”, feito poste, ali vigiando… quando noivo tinha se lá um pouquinho de liberdade, mas sempre vigiada…

A mulheres se vestiam cobrindo o corpo, ato que aguçava a imaginação masculina, que se esperava para vê um pouquinho acima o joelho ou uma disfarçada e curta fixa da barriga… Não sei como elas usavam maiores, pois foi um escândalo quando por cá chegou os tais biquinis. A mulherada hoje mostra tudo que tem e não tem, o que dá ao homem a chance de correr enquanto há tempo. Não se tem mais a curiosidade da expectativa, da excitação pela imaginação.

As escolas católicas, em sua maioria internatos internos e externos, eram lugares de martírio para alunos e alunas ali confinados sem nenhuma liberdade de se manifestar fora das regras rígidas de disciplinas, hora definida para tudo, durante todo o dia. Não era esse descaramento dos reality show, espetáculos de promiscuidade que mostra a degradação social dos animais tidos por racionais. Os filhos eram ali confinados para estudar e na cabeças dos pais, eles estavam protegidos das tentações e influências mundanas, que fazer se essa era a cultura da época, como é a cultura de hoje.

Evandro e Iracy se conheceram neste tempo de severa disciplina dia e noite. Eles se viam em sala de aula ou no pátio da escola, com muito discrição, moderação, para que não desconfiassem de nada, uma simples suspeita e elas poderiam ser proibidos de se vê ou conversar; as cartinhas de amor eram tudo que tinham para com mais tranquilidade falar um do outro; trocarem ideias, falar de sonhos e foi através dessas cartinhas que passaram a si conhecer e entender um do outro, um simples olhar. Para todos inclusive os colegas de classe, eles eram simples amigos e nada mais que isso.

Foram momentos de muito emoção, certamente, em que o coração pulsava forte quando se viam, a vontade de gritar - Eu ti amor! mas era um grito calado, dito apenas com um olhar ou um aperto de mão, com se fosse um ato despretensioso de ate logo… sem nada poder demonstrar.

Fim de ano letivo, que triste!… enquanto muitos colegas se estravasavam de alegria, pois finalmente passariam um tempo fora do quartel general, cristão, Evandro e Iracy não escondiam a tristeza em saber que seriam dois ou três longos meses sem se vêem!… Ela retorna a Correntina, mas exatamente para a Baraúnas, fazenda de seus pais. Por vezes passavam o final de semana na cidade, onde tinham uma residência, porém aquele .não foi o final de um ano letivo como os demis, foi o encerramento do curso de magistério.

Antes de si despedirem, fizeram um pacto de noivado, trocaram alianças e prometeram eterno; trocaram endereço e novamente as cartas de amor seriam o alimento de toda paixão vivida pelos jovens estudantes. Os planos foram traçados, tudo poderia dar certo ou não, mas eles iriam ariscar salvar aquele amor, agora separados pela distancia… No momento certo o coração saberia ser hora de relevar o segredo e o compromisso de jura de Evandro e Iracy.

Não bastava uma formatura escolar para se intitular Professora tão logo concluíam o curso que as habilitam professoras Municipais, elas eram submetidas a uma bateria de provas, como se aferindo seus conhecimentos, através de concurso, para se tornarem Professora Estaduais e aí era outro stato.

Poucas tiveram o privilegio de serem nomeadas para lecionar na sede do município, tão logo foram formadas; parecia algo proposital, as novas professoras passavam pelo desafio de lecionar no interior dos municípios; passar pelo desconforto das hospedarias, do transporte, da carência de materiais didáticos e em toda esta situação; demonstrar amor pela profissão escolhida; mostrar dinamismo para solucionar situação difíceis e ainda apresentar resultados, até que fosse transferidas para a sede ou fizessem concurso para se tornarem Professoras Estaduais e assim serem transferidas do Estado, nas sedes dos municipios. Fora deste roteiro, somente com apadrinhamento político para lecionar em uma escola Estadual sem passar pelo concurso. Foi o que ouvimos de outras professoras da época com quem tivemos a oportunidade de conversar.

Depois de dois anos como Professora no interior do município de Santa Maria, por insistência da amiga Mabel Veloso, irmã do cantor Caetano Veloso, Profa Sisi se inscreve para o curso de professora estadual, em Juazeiro - Ba que ao final, uma prova as classificaria como aprovadas e o concurso para aprovação não era exclusivo para os matriculados no cursos, outras candidatos, formados e de outros estados, poderiam se inscrever para o concurso propriamente dito. Aquele concurso teve 5700 candidatos inscritos e a nossa Professora Iracy Cardoso conquistou o 4º. lugar na classificação final, .sendo as provas realizadas na Capital, Salvador. Em 1960 Profa Sisi é nomeada Professora Estadual e direcionada para o Educandário São José, fundado pelo Revdo Monsenhor Andre Frans Berenos, em Correntina

E o que aconteceu com o estudante de contabilidade Evandro Fillardi em São Paulo? bem, os noivos continuaram seu noivado a distancia, Tudo que acontecia com um o outro tomava conhecimento, era só o tempo da missiva chegar a atualizar as notícias.

O sonho estava mais perto de um final feliz! Iracy já era professora Estadual agora era saber como as coisas iam para o lado do contador Evando Fillard; seu sonho era voltar a Correntina e levar a sua amada, para em algum lugar viver todo amor que um juraram dar um ao outro.

Sem telefone, sem internet e um serviço de correios moroso, levava semanas para que uma carta escrita em São Paulo, chegasse a Correntina, onde o carteiro, o telegrafista e a servidora Dona Ligia Magalhães, sabiam que a Professora sorriria feliz naquele dia, pois tinham recebido carta de São Paulo, endereçada a Professora. No coração os sentimentos amor e fé se revessavam, qual seria mais forte... ambos! pois a fé alimenta o amor e o amor fortalece a fé; mesmo que por vezes a ansiedade e a saudade de se verem, pudessem ser traduzidos por um instante de tristeza... mas era só um momento, apagado com as declarações de amor, trocadas em suas cartas de amor.

1838313.jpg

Tão logo concluído curso de contador, o jovem Evandro viu que o coração não suportaria mais viver distante de sua amada. Em viagem a São Paulo, Edson Alquimim, empresário na cidade de Santana dos Brejos, encontra-se com o jovem contador, recém-formado e lhe faz um convite de sociedade, onde ele lhe prestaria serviços contábeis.

Edson Alquimim já era um influente comerciantes na região, mais tarde se torna um político influente; Evandro viu naquele momento a oportunidade que pedia aos céus, retornar a Santana era estar nos braços da amada em poucos horas e Evandro aceita o emprego, retornando a Santana dos Brejos. .

Pouco tempo depois, Edson Alquimim faz parcerias comerciais com Elias de França Barbosa um forte comprador de algodão e grãos das lavouras no municipio de Correntina. O cantador Evandro certamente contou que era noivo de uma moça em Correntina e Edson Alquimim, para ajudar na aproximação do casal, exigiu de Elias que o contador da sociedade que fizeram tinha que ser Evandro Filardi e aí, aí Evandro finalmente chega a Correntina.

Sem saber o que estava acontecendo, justo no período que Evandro chega a Correntina, Sisi, convence a mãe a irem a São Paulo. A mãe, Dona Mariqunha já tinha conhecimento da bela história de amor de sua filha e juntas vão a São Paulo, não só por razões pessoais mas principalmente para um encontro, onde sogra e genro, enfim se conheceriam. O desencontro é um duro baque… olhem a falta que faz um celular… Evandro porém precisa as pressas retornar a São Paulo, em razão da pendencia de alguns documentos pessoais e o encontro finalmente acontece.

Já havia percorridos seis longos anos… Alegres comemoraram aquele feliz encontro, quando então puderam traçar os rumos do destino daquele amor. O futuro já era visível aos olhos dos jovens namorados que não tiveram namoro; mas enfim o grande sonho já tinha data e hora para acontecer. Seis duros anos de espera, sonhos e os noivos tiram do guardado as alianças que guardavam e Dona Mariquinha, ali, numa cerimonia bem restrita, mãe e noivos, a alianças foram abençoadas, uma prece feita por eles e Evandro colocou sua aliança, Sisi a colocou enquanto sua mãe as abençoa e depois retirou, sob alegação de que seu Pai era quem faria aquele ato simbolico de colocar a aliança em seu dedo, como sua mãe fizera com seu noivo Foi um momento de muita emoção, pelo tempo de espera para que aquele dia finalmente chegasse. Tanto tempo esperando por este momento com a pompa que seu pai podia proporcionar, uma festa para os amigos da família e a menina SiSi feliz da vida sendo a noiva mais feliz da cidade… Não importa o que por ventura passava pelo pensamento, pois a realidade era tudo que se queria no momento.

Sisi voltou a Correntina com sua mãe, Evandro não pode voltar pois ainda tinha pendencias a resolver, mas não perdera tempo em escrever uma carta a Seo Pedro Moreira, oficializando seu pedido de casamento. Prof. Sisi e sua mãe ali mesmo já tomaram algumas providencias junto ao vasto e farto comercio, afinal, agora o casamento era uma questão de tempo… pouco tempo.

Ela chegou primeiro que a carta do noivo para o pai… o carteiro bate a porta e ela corre a seu encontro… - Carta! Seu coração pura agitado e quase sem sentir as pernas, carta para o Senhor Pedro:

- Carta pra o Senhor Pai! (recebe e sai correndo em direção ao Pai1

- Você está bem menina? Está palida…

Seo Pedro aquela altura já sabia de tudo, obvio que a esposa lhe contara tim tim por tim tim do romance escondido da filha e olhando o remetente…

- Entendi! Emoção não!

Seu Pedro lê atentamente a carta e meio que fazendo surpresa, esclama.

- huumm! pedido de casamento por carta?

- Então Pai!

- Me conta esta história direito… é um rapaz de boa familia?

-Claro que sim Pai claro que Sim !

- Sua felicidade é a nossa felicidade filha, deixe o rapaz chegar.

- Posso então usar minha aliança ?

- Está com você?

- Guardo há seis anos.

-Pode, pode1

Evandro Filardi chega a Correntina trazendo um jeep 62, um carro praticamente zero, pois era uma necessidade e não um luxo. Como contador da algodoeira Alquimim e da algodoeira Elias França ele precisariam transitar entre os municípios no cumprimento de suas responsabilidades. Tão logo retorna a Correntina toma as providencias toram tomadas e a casa já estava a espera, pois era a casa que a família tinha na cidade onde o casal foi morar, assim que casaram.

Casados, Evandro não queria que sua esposa perdesse suas conquistas e conforto da casa de seus pais, como a mordomia de empregados, as viagens de férias etc e para manter essa qualidade de vida, passa usar seu velho jeep 62, que trouxera de São Paulo, fazendo fretes. Se tivesse que ir a Santa Maria, levava e trazia pessoas que iam resolver problemas bancários, se Correntina não tinha agencia de nenhum banco, era juntando o útil ao agradável e o Jeep se não lhe dava a renda desejadas, ganha o custo das viagens.

O velho Jeep, hoje reformado, descansa a sombra de uma grande mangeira, no quintal, no alto da colina…

Como o casal fixa residência em Correntina, Revdo André, que nunca perdeu o fato de conhecer a distancia um bom professor, convida Evandro para lecionar contabilidade no Educandário e assim, ganhamos o melhor professor que já conheci de escrituração mercantil.

A estrela do Professor Evandro continua brilhando em Correntina, quando surge uma vaga de oficial de registro de imóveis, no cartório da cidade. O prefeito Elias França (segundo relata Evandro) de imediato nomeia sua sobrinha Júlia Neves par o cargo, mas a vaga tinha que ser ocupada por concurso e somente em caso de não havendo candidatos para concorrer a vaga, é que então a mesmo poderia ser preenchida por indicação do prefeito.

Após inscrever-se para concorrer a vaga, Evandro é convocado ao Gabinete do Prefeito onde lhe é oferecido uma secretaria do município. Alertado pelo promotor e amigo, Dr. Osmar, quanto a instabilidade do emprego, por se tratar de emprego politico, Evandro recusa o convite do Prefeito; Evandro e a sobrinha do prefeito concorrem a vaga, sendo Evandro escolhido por ter resultados excelentes e toma posse no Cartório de imóveis e mais tarde no Cartório de Registro Civil.

Do matrimonio se origina quatro filhos:

Cássio Antônio: engenheiro agrônomo, mora nos Estados Unidos, há mais de 25 anos, onde já conquistou cidadania americana e até os anos 80 trabalhava como assessor, secretário particular da escritora americano Daniel Still;

Elvio Cardoso. Advogado e gerente da fazenda Baraúnas, propriedade da família, que entre outras atividades, se dedica a criação de gado e venda se sêmem; de raças apuradas; com atividades relacionadas a psicultura e seus derivados. Foi casado com a odontóloga Minelidia Carvalho, com quem tem dois filhos, João Vitor e Lara. Ambos residem ainda em Correntina

Ionara Cardoso Marquetti. Bióloga e acadêmica em direito. Casada com o Engo elétrico Carlos Alberto Marquetti, residem em Goiânia, tem dois filhos, Humo e Igor.

Iane Cardoso Fonseca. Engenheira civil, casada com o Engno Antônio Luciano Fonseca, residem em Goiânia e tem um filho, Lucas.

Aos Professoras Evandro e Sisi, fica aqui esta homenagem, autorizada e honra de poder contar mais uma história de amor.

A F A M I L I A

1838315.jpg1838314.jpg

1838316.jpg

1838308.jpg

Flamarion Costa
Enviado por Flamarion Costa em 23/10/2026
Comentários